LETRAMENTO E EDUCAÇÃO: todos os fonemas são mágicos sinais...
LETRAMENTO DIGITAL
Profª. Msc.: Jane Miranda Alves
Profª.: Isabel França Rodrigues
Curso: Letramento digital
Professora Msc.: Jane Miranda Alves e Isabel França Rodrigues
Carga horária: 08 h
Período: 21 e 22 de setembro de 2011
Ementa: Conceito de letramento e alfabetização. Modelos de letramento. Letramento digital e suas contribuições ao ensino-aprendizagem da língua materna. Redes de relacionamento, mídias e hipertexto.
Metodologia:
§ Estratégia: exposição oral e debate sobre o assunto
§ Recursos didáticos: data show, material impresso, sala de multimídia
Conteúdo programático:
§ Conceito de letramento
§ Alfabetização e letramento
§ Modelos de letramento
§ Conceito de letramento digital
§ Hipertexto e gêneros digitais
Referências
BAGNO, Marcos (et al.). Práticas de letramento no ensino: leitura, escrita e discurso. CORREA, Djane Antonucci; SALEH, Pascolaina Bailon de Oliveira (Orgs.). São Paulo: Parábola Editorial; Ponta Grossa, PR: UEPG, 2007.
FERREIRA, Débora Cristina do Nascimento. Fundamentos teóricos metodológicos da linguagem. Belém, Pa: Editora da Universidade do Estado do Pará, 2011.
KLEIMAN, Ângela B. Modelos de letramento e as práticas de alfabetização na escola. In: KLEIMAN, Ângela (org.). Os significados do letramento: uma nova perspectiva sobre a prática social da escrita. Campinas. SP: Marcado das Letras, 1995.
MARCUSCHI, Luiz Antonio; XAVIER, Antonio Carlos (Orgs.). Hipertexto e gêneros digitais: novas formas de construção de sentido. São Paulo: Cortez, 2010.
_____________________. Da fala para a escrita: atividades de retextualização. São Paulo: Cortez, 2001.
SOARES, Magda. Letramento e alfabetização: as muitas facetas. Revista Brasileira de Educação - ANPED, nº 25, Minas Gerais, 2004.
01. O que é letramento?
01. O que é letramento?
O propósito aqui é discutir o conceito de letramento para a prática de sala de aula, evidenciando de que forma o ensino-aprendizagem é construído em sala de aula pelos participantes da ação. Para tanto, inicialmente vamos conceituar alfabetização e posteriormente letramento, bem como os modelos de letramento. Na sequência, apresento de que forma essas concepções contribuem para a prática em sala de aula e para a formação do indivíduo.
1.1. Alfabetização e letramento
Em meados de 1980 ocorre simultaneamente a idéia de letramento no Brasil, illettrisme na França e de literacia em Portugal, distinguindo-se do que se tinha até então de alfabetização. Nos Estados Unidos e na Inglaterra o fenômeno da beginning literacy tornou-se o foco de atenção e discussão nas áreas da educação e da linguagem o que fomentou grande quantidade de material produzido na época acerca desse assunto. A partir de então, novos programas surgiram com a finalidade de tornar efetiva essa prática através de avaliação do nível de competência de leitura e de escrita da população e ganha mais impulso através da proposta da UNESCO (no final de 1970) de ampliação do conceito de literate para functionally literate. Esta proposta sugere que “as avaliações internacionais sobre o domínio de competências de leitura e de escrita [vá] além do medir apenas a capacidade de saber ler e escrever” (SOARES, 2004: 6). Nessa direção, há uma diferença entre as práticas sociais de leitura e de escrita e a aprendizagem do sistema de escrita, ou seja, entre o conceito de letramento (illetrismo, literacy) e o conceito de alfabetização (alphabétisation, reading instruction, benning literacy).
Inicialmente nos países desenvolvidos era comum constatar que a população, embora fosse alfabetizada, não dominava as habilidades de leitura e de escrita e, portanto, não participava efetivamente das práticas sociais e profissionais que envolvessem a língua escrita. Sendo assim, um país como a França por revelar o precário domínio sobre as competências de leitura e de escrita, tinha certa dificuldade em inserir seus falantes no mundo social e profissional. Nos Estados Unidos era comum os jovens da high school não dominarem as habilidades de leitura demandadas em práticas sociais e profissionais que envolvem a escrita, no que resultou em várias pesquisas sobre o assunto. Constatou-se, então, que o problema consistia não no fato de não saber ler e escrever (illiteracy), mas sim em não dominar as competências de uso da leitura e da escrita (literacy).
Problemas como o domínio precário de competências de leitura e de escrita que se efetivem nas práticas sociais letradas, bem como as dificuldades no processo de aprendizagem do sistema de escrita, ou da tecnologia da escrita são tratados separadamente, o que revela o reconhecimento de suas especificidades e uma relação de não-causalidade entre eles.
Em países como a França e os Estados Unidos a aprendizagem inicial da leitura e da escrita (alfabetização) mantém sua especificidade no contexto das discussões sobre problemas de domínio de habilidades de uso da leitura e da escrita (problemas de letramento). No Brasil a importância dessas habilidades teve sua origem vinculada à aprendizagem inicial da escrita, ou seja, os conceitos de letramento e alfabetização se superpõem e com freqüência se confundem. Isto pode ser observado nos vários discursos acadêmicos que circulam socialmente.
Na década de 40, de acordo com o Censo, o conceito de alfabetizado estava relacionado à capacidade de saber ler e escrever o próprio nome. Já em 1950, ser alfabetizado era aquele capaz de não só saber ler e escrever, mas de exercer uma prática de leitura e escrita, ainda que bastante trivial. Aqui observa-se que o conceito de alfabetização segue se estreita em direção ao conceito de letramento: saber ler e escrever em direção à capacidade de uso dessa leitura e escrita dentro das práticas sociais.
Em 1991, o Jornal Folha de São Paulo divulgou o resultado do Censo sobre a alfabetização no Brasil, que dizia que somente 18% da população eram analfabetos, o jornal então acrescenta “mas o número de desqualificados é muito maior”. Ora, “desqualificados” eram aqueles que declaravam saber ler e escrever um bilhete simples, tinham menos de quatro anos de escolarização, sendo, assim, analfabetos funcionais. Nessa direção afirma Soares (2004) que a mídia vem já há algum tempo divulgando um conceito de alfabetização que se aproxima do conceito de letramento.
Na produção acadêmica brasileira, autores como Roxane Rojo e Ângela Kleiman discutem o conceito de letramento tomando como contraponto o conceito de alfabetização. Para as autoras alfabetização e letramento não se fundem, mas se confundem em meio a um caos linguístico que parece teimar em não aceitar que cada um deles tem especificidades diferentes. Isto leva a uma inadequada fusão entre esses dois processos. É comum a pessoas tomarem letramento por alfabetização. Entretanto, não se pode negar a relação intrínseca entre esses dois conceitos, já que a alfabetização é um dos processos de letramento. Sendo assim, faz-se necessário aqui algumas definições:
a) Analfabetismo- estado ou condição, o modo de proceder daquele que é analfabeto.
b) Analfabeto- que não sabe ler e escrever.
c) Alfabetizar- tornar o indivíduo capaz de ler e escrever.
d) Alfabetização- é a ação de alfabetiza.
e) Letrado- versado em letras, erudito.
f) Iletrado- que não tem conhecimentos literários.
g) letramento- é o resultado da ação de ‘letrar-se’ (tornar-se letrado).
Para melhor retomar a ideia de alfabetização e letramento, Soares (2001: 39-40) diz que:
Um indivíduo alfabetizado, não é necessariamente um indivíduo letrado; alfabetizado é aquele indivíduo que sabe ler e escrever; já o indivíduo letrado, o indivíduo que vive em estado de letramento, é não só aquele que sabe ler e escrever, mas aquele que usa socialmente a leitura e a escrita, pratica a leitura e a escrita, responde adequadamente às demandas sociais de leitura e de escrita.
Sendo assim, dissociar alfabetização de letramento incorre em um equívoco, já que a criança (e o adulto analfabeto) na escrita ocorre simultaneamente pelo processo de alfabetização, a aquisição do sistema convencional de escrita, e pelo letramento, o desenvolvimento de habilidades de uso desse sistema em atividades de leitura e escrita nas práticas sociais que envolvem a língua escrita. Portanto, são partes da mesma moeda, interdependentes e indissociáveis.
A alfabetização desenvolve-se no contexto de e por meio de práticas sociais de leitura e de escrita, isto é, através de atividades de letramento, e este, por sua vez, só se pode desenvolver no contexto da e por meio da aprendizagem das relações fonema-grafema, isto é, em dependência da alfabetização. (SOARES, 2004: 14)
1.2. Letramento
Facetas como a imersão das crianças na cultura escrita, participação em experiências variadas com a leitura e a escrita, bem como conhecimento e interação com diferentes tipos e gêneros de material escrito, fazem parte das especificidades do letramento. Neta direção, pode-se dizer que letramento, segundo Kleiman, 1995: 19 apud SCRIBNER; COLE, 1981) é o “conjunto de práticas sociais que usam a escrita, enquanto sistema simbólico e enquanto tecnologia, em contextos específicos, para objetivos específicos”.
ATIVIDADE 01
O texto abaixo é uma prova de francês ministrada para alunos da 4ª etapa de uma escola pública da zona urbana de Belém, turno da noite. Embasado nos conhecimentos acerca de alfabetização e letramento, explique o que ocorre com as respostas dos alunos 01 e 02 para as questões propostas pelo professor da turma.
Aluno 01
Aluno 02
1.2.2. Modelos de letramento
1.2.2.1. Modelo autônomo de letramento
É predominante na escola. Neste modelo, a escrita é tida como um produto pronto, acabado e regido por leis internas e, portanto, não sofre mudanças de ordem social, cultural, lingüística, ou quaisquer outras. Aqui existe somente aquilo que dado como certo ou errado, Cabendo aos menos escolarizados um papel secundário na sociedade e, portanto, neste modelo o sujeito está imerso em uma exclusão social, econômica, política, cultural de grupos iletrados mediante grupos letrados.
A aquisição da tecnologia da escrita implica no desenvolvimento de habilidades cognitivas superiores (capacidade de abstração, raciocínio lógico), sendo assim o escolarizado seria, então, mais bem capacitado que a pessoa não ou menos escolarizada para raciocinar, agir, avaliar. Pode-se dizer que haveria diferenças de cognição entre grupos sociais letrados e não letrados e reconhecidos erroneamente como deficiências produzidas por grupos deficitários quando comparados aos grupos letrados.
Algumas afirmações fundam o modelo autônomo de letramento, tais como: a associação entre letramento e progresso, civilização, tecnologia, liberdade individual, mobilidades social; letramento como causa do desenvolvimento econômico e de habilidade cognitiva; profundas diferenças entre as ‘funções lógicas’ da linguagem (escrita) e suas funções interpessoais (oralidade). Assim, a escrita aqui é concebida como algo perfeito, organizada, objetiva e superior, já a fala, ao contrário, é tida como desorganizada, popular, subjetiva e inferior.
Assim, pessoas menos escolarizadas ou não escolarizadas desenvolvem modos de cognição adquiridos em outras agências de letramento como no local de trabalho e na igreja. Essas práticas aqui não são reconhecidas e valorizadas.
Para Marcuschi (2001), fala e escrita ocorrem dentro do continuum tipológico das práticas sociais de produção textual e não na relação de dois pólos opostos. Desta forma, pode-se dizer que há textos mais próximos da fala como as conversas no chat da internet, as mensagens de celular e os textos orais mais próximos da escrita como as palestras, os discursos oficiais. Sendo assim esse continuum contribui para o aprendizado da escrita.
1.2.2.2. Modelo ideológico de letramento
Este modelo também conhecido como emancipatório ou situado chega ao Brasil embalado por Ângela Kleiman (1995) embasada em Street (1984). Considera que as práticas de letramento são determinadas não só pelos aspectos culturais, mas também pelas conjunturas de poder numa sociedade, tornando-se , nesse caso, dinâmicas,pois mudam de acordo com o contexto em que estão inseridas. Aqui a escrita está relacionada à história sociocultural dos indivíduos, visto que todos os grupos através de suas práticas culturais despertam nos atores da ação habilidades específicas. Um exemplo disso, e a trajetória que a criança percorre ao entrar em contato com a leitura e a escrita, sendo esses bens culturais de uma dada sociedade ou família, sendo essas economicamente prestigiadas ou desprestigiadas. O resultado influenciará diretamente o letramento escolar a que esses indivíduos estão relacionados.
O modelo autônomo é colocado como uma versão fraca do conceito de letramento, pois estaria articulado a mecanismos de adaptação da população às necessidades e exigências sociais do uso de leitura e de escrita. È uma perspectiva adaptativa que está ligado ao conceito de alfabetismo funcional e de muitas críticas aos resultados dos exames e medições de competências e habilidades. Já a versão forte está mais próxima do enfoque ideológico e da visão Paulo-freireana de alfabetização. É, portanto, mais crítica, mais revolucionária visto que contribui não para a adaptação do cidadão às demandas sociais, mas para resgatar a autoestima, assim como o processo de construção de identidades fortes e potencialização de poderes (empowerment, enpoderamento) dos sujeitos sociais, em sua cultura local. Para tanto, deve-se levar em conta os múltiplos letramentos, valorizados ou não, globais ou locais. Faz-se necessário,então, a existência de múltiplos letramentos.
Os múltiplos letramentos estão interligados e podem ser categorizados como: letramentos dominantes ou institucionalizados e letramentos locais ou vernaculares. Os letramentos dominantes ou institucionalizados estão ligados a instituições formais e são valorizados legal e culturalmente. Os letramentos locais ou vernaculares, não são sistematizados por instituições, eles estão presentes no cotidiano, nas culturas locais e, geralmente, são desprestigiados pela cultura oficial e, muitas vezes são práticas de resistência.
Uma das funções primordiais da escola está no fato de inserir os alunos às práticas sociais em que a leitura e a escrita são usadas, para tanto, deve-se considerar: a) os múltiplos letramentos ou letramentos múltiplos (culturais, locais, institucionais, etc.); b) os letramentos multissemióticos (letrar para o campo da imagem, da música, das demais semioses); c) letramentos críticos e protagonistas (tratamento ético dos discursos que circulam em um meio social)
ATIVIDADE 02
Faça a diferença entre letramento e alfabetização, citando exemplos de cada um deles.
ATIVIDADE 03
Apropriando-se dos múltiplos letramentos, formule uma situação em que possa inserir os aprendentes nas práticas sociais. Você pode tomar por base uma prática de letramento local originária do cotidiano brasileiro ou situada no contexto amazônico (compor, cantar, dançar, etc.).
Laboratório de práticas Pedagógicas- Pavilha E-102
1. Assistir aos vídeos e discutir com os colegas nas diferentes redes sociais. Explorem as diferentes linguagens (outros vídeos, emoticons, imagens, música, etc.) dispoíveis na internet.
2. Pesquise vídeos, imagens, textos, etc. a respeito de temáticas que poderiam ser trabalhadas nas escola, no sentido de ampliar as práticas sociais. Poste os endereços e jusifique suas escolhas.
3. Quais as estratégias necessárias para que se trabalhe na perspectiva do letramento digital considerando o seu contexto de atuação?






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